• Lucas Pierozan

O Design Biofílico aplicado na arquitetura e seu impacto nas pessoas

Em um mundo urbano cercado por tecnologia e construções, a conexão com a natureza às vezes parece quase perdida. O design biofílico surge como uma maneira inovadora de criar e transformar ambientes em espaços que possam melhorar nossa saúde e bem-estar por meio da proximidade com a natureza e elementos naturais.


Para aprofundar o assunto, convidamos a arquiteta Bia Rafaelli, que trabalhou com a líder do Design Biofílico Elizabeth Calabrese no workshop sobre Design Biofílico em Nova York, na Conferência Cities Alive 2018, além de ser Profissional Qualificada e Certificada PRO pela Healthy Building Certificate – HBC PRO. A Bia é arquiteta e urbanista de formação e, depois de quase 10 anos de formada, começou a questionar seu propósito.


Como você começou a se interessar pelo tema do design biofílico? 

Senti uma necessidade alinhar meu propósito profissional ao meu propósito de vida. Sempre busquei saúde e bem-estar para a minha vida e remetia isso às coisas naturais. Busco me alimentar de alimentos naturais, pratico yoga, meditação, gosto de me exercitar e de trabalhar minha espiritualidade. 


Por muitas vezes, eu achava a arquitetura vazia, mais preocupada com estética, luxo e tendências do que com a saúde e o bem-estar das pessoas. Eu queria levar saúde e bem-estar pras pessoas, através do meu trabalho, da arquitetura e ansiava por algo que fizesse sentido pra mim.


Foi uma busca de autoconhecimento e conhecimento. Comecei por um curso de construções sustentáveis. Muito bom, falava de aproveitar os recursos naturais e de melhorar a eficiência energética de uma edificação, porém nem sempre pensando nas pessoas, na saúde das pessoas do local.


Foi em 2016, quando comecei a trabalhar numa empresa de soluções verdes, paredes e telhados verdes e soluções para tratamentos das águas, a Ecotelhado, que tive meu primeiro contato com o design biofílico, através de um artigo em inglês na internet. Quando li, pensei: “nossa, é tudo o que eu sempre busquei”.


A partir disso fui em busca de mais conhecimento sobre o assunto. Fui atrás de pessoas e bibliografias da área e não encontrei nada no Brasil. As referências eram todas de fora do Brasil. Nesta busca, encontrei a Elizabeth Calabrese, arquiteta americana que tinha trabalhado com o pioneiro do design biofílico Stephen Kellert, escrito um artigo com ele e ensinava o design biofílico a outros profissionais. Enviei então uma mensagem para ela no linkedin, sem muita pretensão, perguntando se poderia me ajudar a saber mais sobre o assunto. E ela me respondeu! Desta forma trocamos alguns e-mails, nos aproximamos através de chamadas de vídeos e ela pode me explicar melhor o que realmente era o design biofílico.


Em 2018, ela me convidou para trabalhar com ela no Workshop de Design Biofílico na Conferência Cities Alive, em Nova York. Uma conferência incrível que fornece soluções de infraestrutura verde para os desafios urbanos, reunindo profissionais de design e formuladores de políticas. Nesta conferência pude ter contato com excelentes profissionais focados em construir um mundo melhor para as pessoas e para o planeta como o Bill Browning da Terrapin Bright Green.


De lá pude trazer muito conhecimento e o workshop de design biofílico para o Brasil. Assim encontrei meu propósito e minha missão de compartilhar com outros profissionais este processo de design tão inspirador e apaixonante, ajudando a criar um habitat saudável e de cura para os seres humanos e o mundo natural.


Atualmente, exponho palestras, workshops e cursos de design biofílico. E também presto consultorias para equipes de projetos com a biofilia em mente: de como a nossa saúde e o bem-estar estão intrinsecamente ligados à conexão com a natureza. E foi assim que descobri como levar “amor à vida” às pessoas através da arquitetura e como fazer meu coração vibrar.

O que é o design biofílico e qual a sua relação com a natureza?

O Design Biofílico vem da palavra Biofilia. Biofilia é um termo que une as palavras gregas “Bios” que significa vida e “Philia” que significa amor, é literalmente “Amor à vida”. Este termo foi popularizado em 1984 pelo biólogo americano Edward O. Wilson quando lançou o livro com o título “Biophilia”, definindo como a nossa conexão inata com a natureza que mesmo no mundo moderno continua sendo essencial para a nossa saúde física, mental e para o nosso bem-estar. E este conceito foi trazido para o design, ou seja, para os ambientes construídos em 2005 pelo ecologista americano Stephen Kellert, como “a necessidade de manter, melhorar e restaurar a experiência benéfica da natureza no ambiente construído”.


O design biofílico trata da nossa relação com a natureza, através dos ambientes construídos. Surge como uma nova forma de pensar e planejar nossos ambientes para promover o bem-estar humano e a cura do planeta, baseado em aspectos e questões fundamentais durante o nosso desenvolvimento para nos proporcionar saúde e bem-estar e que continuam sendo essenciais até hoje.

Como a arquitetura voltada à moradia pode incorporar o design biofílico?

O design biofílico possui alguns princípios, 05 princípios essenciais, que são nossas intenções ao projetar, o que devemos ter mente ao planejar nossos ambientes. E possui 24 estratégias de projeto, como podemos trazer as experiências da natureza para os nossos ambientes, para conectar da melhor maneira pessoas e natureza. Podemos incorporar experiências diretas da natureza, pensando em trazer da melhor maneira a experiência da luz e do ar natural para a nossa moradia, pensando em conectar as pessoas à vegetação local. Também podemos pensar nas experiências indiretas da natureza, trazendo a experiência das cores, formas e materiais naturais, assim como podemos pensar nas experiências espaciais que temos na natureza como a perspectiva e refúgio. É importante termos a nossa moradia como um abrigo, uma proteção, mas também é importante percebermos o espaço circundante exterior, percebendo o clima, a paisagem e a passagem de tempo. Estes aspectos eram fundamentais para os nossos ancestrais perceberem as ameaças e oportunidades no mundo natural.  


Como o design biofílico pode interferir no bem estar, na saúde e nas emoções dos usuários do espaço construído?  

O design biofílico surge de uma crescente base científica que vem comprovando os benefícios do contato com a natureza para a nossa saúde. E quando falamos em saúde é um completo estado de bem estar físico, mental e social. 

Nós temos uma conexão inata com a natureza e uma ligação emocional genética das centenas de milhares de anos que vivemos e nos desenvolvemos no mundo natural. Nós fomos moldados na natureza, fazemos parte de uma comunidade vasta e interconectada na rede da vida. E a nossa própria existência depende da conexão com a natureza, que exerce um enorme efeito benéfico nas nossas psiques, almas e corpos.


Como nosso habitat mudou do mundo natural para o mundo construído, precisamos achar soluções para criar um ambiente construído saudável, estabelecendo uma experiência satisfatória com a natureza dentro destes espaços. A vida na cidade é algo muito recente perto de toda a nossa existência, nosso organismo não teve tempo evolutivo para se adaptar.


O ambiente impacta diretamente no nosso cérebro, nas nossas emoções e no nosso comportamento. A neurociência já vem comprovando estes efeitos. E precisamos promover ambientes saudáveis para as pessoas prosperarem, isso depende de estratégias naturais. O design biofílico pode promover diversos benefícios como:


  • Reduzir estresse, diminuir a pressão, proporcionar o alívio da dor, melhorar a recuperação dos pacientes em ambientes de saúde;

  • Estimular o aprendizado e aumentar a concentração dos alunos em ambientes de educação;

  • Melhorar o bem-estar, a criatividade e a produtividade dos colaboradores em ambientes corporativos;

Como um edifício que incorpora estratégias biofílicas pode ser bem-sucedido desde a escala dos interiores até a relação com o seu entorno?

Utilizar a biofilia na base do processo de design promoverá este sucesso em termos de saúde, sustentabilidade e de resiliência. Integrar a natureza no ambiente, através dos sistemas e processos naturais promoverá saúde para as pessoas e para o planeta. Podemos adotar sistemas e processos naturais para promover água limpa, ar puro, luz natural, resgatar a fauna e flora local, criar senso de comunidade, construções com solos saudáveis.


Precisamos trabalhar de mãos dadas com a natureza, mudando nossas intenções de dominação e degradação para cooperação e colaboração, o que consome menos energia e proporciona vivermos em harmonia neste planeta.

Como os edifícios podem contribuir para o movimento de cidades biofílicas, criado por Tim Beatley?

Para criarmos cidades saudáveis precisamos implementar a biofilia na escala da infraestrutura das nossas cidades. A natureza deve estar no centro do design e do planejamento, conectando pessoas e natureza. Nós, como seres humanos, cortamos a paisagem e acabamos com parte da fauna e flora local. Nós temos a responsabilidade de repararmos a natureza para deixá-la inteira novamente, como diz Ken Yeang. Precisamos resgatar a fauna e flora local nas nossas edificações, em diversas escalas. Precisamos criar pontes ecológicas para não bifurcar a paisagem e causar desequilíbrios ecológicos. Pensar em integrar os sistemas e processos naturais nos nossos edifícios contribuirá para uma cidade biofílica. 


Podemos pensar em hortas comunitárias nos nossos terraços e comunidades, promovendo acesso à alimentação natural a todos. E para irrigação das nossas vegetações urbanas, podemos pensar na captação da água da chuva. Podemos pensar na nossa mobilidade no entorno das nossas edificações, priorizando caminhadas e a circulação por bicicletas, estimulando exercícios físicos. O nosso estilo de vida é moldado pela maneira como planejamos nossos ambientes (edifícios, paisagem e cidade). Para reduzirmos todos estes problemas de saúde que vem crescendo com ansiedade, depressão, estresse, obesidade, diabetes...precisamos uma mudança de mentalidade. Nós fazemos parte da natureza, precisamos planejar nossos ambientes integrados à mesma, promovendo a cura das pessoas e do planeta!

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